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A parábola do cara inteligente

novembro 16, 2011

Josué carregava o peso de ser o garoto mais inteligente da família. Não era coisa muito difícil. Tinha apenas dois irmãos, os primos eram distantes e se o pai pudesse ter um status seria de inexistente, apesar de vivo. A mãe era o motivo do peso, daquelas que adoram falar do filho, que falam até sozinhas se não tivem ninguém para quem contar de seus feitos. Nem eram feitos de verdade, mas contra esse argumento ela sempre respondia com “isso não vem ao caso” e vencia todas as discussões.

Por isso, a carreira de Josué estava desenhada, como um roteiro de novela. Para não correr o risco de errar, matinha-se sempre na linha, e isso acarretou em consequências na sua evolução como homem. Homem mesmo, pois a única relação sexual que conseguiu na vida tinha sido com uma mulher que ainda se deu o direito de fazer charme depois de ter recebido trezentos reais adiantados. Fora isso, nunca namorou. Não que inteligência tenha a ver com seu celibato forçado, mas que era uma bela desculpa para sua timidez, era. E ele fazia questão de usá-la sempre que precisava argumentar com alguém, na maioria das vezes com ele mesmo, que se achava um idiota. A questão é que isso o mantinha concentrado nos estudos, esses que o levaram a ser um aluno respeitado nas turmas pelas quais passou ao longo da vida, inclusive na de Engenharia de Computação, curso em que se formou com louvor. Para os leigos, para ser um engenheiro de computação é preciso fazer três vezes o mesmo curso de informática de dois anos (ps: o que dá um total de seis anos).

Josué então passou a vida toda como o cachorro que senta no banco da frente do carro do dono, sentindo o vento nas orelhas e observando a vida rolando adoidada lá fora. Se ele fosse um cachorro, seria uma metáfora para algo que seria o máximo, mas como era um ser humano, então o sentimento era o de ter levado uma vida medíocre enquanto via as coisas acontecendo. Ou seja: enquanto seus dois irmão se divertiam, namoravam e faziam sexo, ele estudava nos fins de semana para ser o melhor técnico de informática com um diploma de engenheiro, pois sentia a necessidade de se formar com louvor, o que era algo realmente admirável entre os engenheiros – uma sensação semelhante ao do babaca do Harry Potter desfilando bobosamente com sua Nimbus 2000 no meio de Hogwarts, ou o Quico fazendo inveja ao Chaves com seu pirulito gigante.

Um dos irmãos fazia Direito e o outro era aluno de Relações Públicas, os dois de faculdades particulares com profissões totalmente respeitáveis. Tão respeitáveis quanto vendedores na Terra dos Vendedores. E não tinha nada de errado nisso. Já Josué passou com facilidade numa universidade pública, o que num metáfora clichê era o fruto de tanto estudo sendo colhido.

A única coisa que ele fazia além de estudar era manter seu hobby de consertar sapatos. Consertava sapatos com a mesma eficiência que um flanelinha de boa qualidade os engraxava nas ruas do centro do Rio. Isso quer dizer que ele era bom mesmo no que fazia. Na casa da família, os cômodos poderiam estar empoeirados, a TV mal sintonizada, o fogão de quatro bocas com uma boca só funcionando, mas os sapatos, eles estavam sempre perfeitos. Desde criança, acostumou-se a salvar as sandálias da mãe, que, coitada, sempre quebrava os saltos. O mesmo acontecia com os sapatos e tênis de seus irmãos e seus. Sendo assim, raramente jogavam um calçado fora, deixando uma pilha com dezenas deles num quarto reservado só para eles. Quando não aguentava mais estudar, ia para o quarto e arrumava logo o que fazer, nem que tivesse que ajeitar um chinelo.

Isso não mudou depois que se formou na faculdade. No primeiro mês depois de formado, olhou bem no espelho, e como sempre fazia, deu um belo sorriso. Ninguém sorria tão resignadamente bem quanto ele. Enquanto penteava os cabelos, percebeu alguma coisa que constrastava com o resto dos fios em sua cabeça, e precisou passar a a mão no cabelo umas dez vez até se convencer: estava com cabelos brancos com apenas 22 anos.

Para alguém que quase nunca teve com o que se preocupar, a visão dos fios brancos o deixou com a vista quase turva de preocupação. Nessa noite, chegou a sonhar que era realmente o cachorro que vivia na janela do carro olhando o mundo. Um cão cheio de pelos brancos como os da sua cabeça. Antes disso, havia passado a tarde repetindo “caralho, caralho, caralho, caralho, caralho” baixinho para si mesmo durante o trabalho. Procurou logo um motivo para extravasar. E, ora essa, sem namorada não foi em sexo que pensou. Não era de se surpreender que não tinha namorada. Nem nisso pensava; e nem foi nisso que pensou quando decidiu que precisava mudar. Sexo para ele não era recompensa o bastante para 22 anos de tanto estudo. Era exigente até nisso.

Precisava de um “ao invés”; compensar os baixos da vida com altos e não médios. E pensou no que mais gostava: sapatos. Fez então o que achou o mais sensato. Invadiu uma loja da Mr.Cat do shopping, fingiu-se de comprador e saiu de lá com quatro pares de sapatos furtados na mochila. Isso, sim, era viver. Josué quase sentia o fio branco mudar de cor na cabeça enquanto andava rapidamente para a saída do shopping. Não podia sentir-se mais feliz. Ainda bem que aproveitou bastante, porque dez minutos depois foi cercado por três seguranças na entrada do estacionamento e acabou preso. Josué passou tanto tempo estudando, mas no final das contas continuou burro. Imaginou que sua felicidade estaria naquilo que realmente gostava, os sapatos, mas só conseguiu pensar em roubá-los em vez de abrir uma loja.

I’ll Be Doin That Today

julho 19, 2011

Foram dias se arrastando desde que ela se foi. As vinte e quatro horas pareciam bem menos, as noites cada vez menos produtivas. Quando ele deu por si, já tinham se passado anos, com as mesmas pessoas, sonhos, perspectivas, promessas. Até perceber que o cheiro dela não passava de um detalhe, uma desculpa. Era como se caminhasse numa rua movimentada e todos os odores do mundo fossem sentidos mas só o dela percebido, algo que logo acaba quando se segue em frente.

A esperança sobrevivia, sempre no discurso de que as coisas melhorariam, o tipo de frase a qual pessoas de mente pequena normalmente se agarram; e com ele não era diferente.

Mas não era sempre assim. Ninguém vive dessa maneira por todos os dias, noites, nos sonhos. A realidade parecia se inverter a partir do momento em que ele fechava os olhos, pois quando acordado é que nada parecia fazer sentido.

- A vida é essa, o mundo continuará do mesmo tamanho, o ciclo permanecerá – concluiu.

Entretanto, tal inversão era temporária. E quando ocorria, buscava o ermo. Enxergava como sua libertação, reflexão, a busca de outras sensações.

- Vou mudar – disse a si. – Preciso.

Saiu de casa com a roupa do corpo e andou. Transportou-se a outro ambiente, sem sentir o movimento dos pés. Sua caminhada o levou a algum lugar. Não sabia onde estava, mas seus pés passaram a percorrer um caminho físico novamente. Agora, estavam cheios de areia e, ao longe, algo parecia brilhar.

Não deixou sua mente concluir. Já estava lá mesmo, tinha entrado no jogo. Então apenas fechou os olhos e continuou a viagem. O vento batia em seu rosto, quebrava em seu corpo. Era a trilha sonora do momento: não havia jazz, nem blues, sem espaços para melodias melancólicas para lhe enganar.

Não sabia onde estava, não tinha ninguém. Estava sozinho, com areia nos pés, com algo que não conseguiu identificar à frente, antes de fechar os olhos. Mas nunca se sentiu tão bem; a música até voltou a ecoar em sua mente: um hip hop bem baixinho…

Havia decidido.

- É aqui.

Um dedo enconstou ao seu. E antes que ele pudesse abrir os olhos…

- O que faz aqui? – disse uma moça.

E ao hip hop juntou-se o jazz.

Círculo

junho 11, 2011

Muitas vozes à volta, cheiro de cigarro, cadeiras espalhadas por toda a parte, rodeando as várias mesas distrbuídas pelo bar. Enquanto todos se divertiam ou pelo menos pareciam faze-lo, entre conversas, cochichos e alguns outros a base da gritaria, um rapaz sentava-se sozinho de frente para uma mesa. Uma cadeira ao lado, sem ninguém, com apenas uma mochila como companhia.

Pare ele, não parecia importar. Na verdade, ele nem estava lá. Somente seu corpo, sua mão inocente, que vez ou outra levava o copo à boca para diminuir a cerveja do recipiente. Não era possível saber o que se passava pela sua cabeça, mas imaginar não custava nada, bastava somente analisar sua fisionomia.

As pálpebras baixas, os olhos mirando o chão, enxergando não o concreto, mas um passado ou talvez um futuro possível.

Nesse futuro, uma garota chegava e o acompanhava, bebia com ele, dava risadas, que faziam seus cabelos semi encaracoladas dançarem no ar. Não um mas dois copos serviam-se a mesa, o silêncio não existia, pensar não fazia parte deste mundo. Vez ou outra, se entreolhavam, vislumbrando outro futuro.

Com os dois na cama, a realidade ria dos românticos, os movimentos denunciavam a excitação, o tempo dava saltos longos, os olhos – os dele, castanho-escuros, os dela, claros – às vezes se encontravam, e a cabeça apoiada no colo da mulher anunciava o fim do êxtase.

No bar, a cadeira antes ocupada pelo rapaz agora estava vazia, assim como a mesa e a cadeira ao lado, antes pertencente à mochila. Não era possível saber o que aconteceu. Era preciso analisar os detalhes. Os assentos não seguiam a mesma direção, a quantia deixada como pagamento pelo consumo era mínima. Olhando mais de perto, agora sim, talvez uma resposta. Mas na mesa não havia nada. O garçom fizera seu trabalho direito e levara tudo, esquecendo somente de passar o pano. O detalhe necessário. Na umidade da mesa, bem de perto, a resposta: um círculo foi formado pelo suor que escorreu do copo, mas era o único círculo na mesa.

Nostalgia com Chico bu… Art Popular

novembro 22, 2010

Ai, ai, a nostalgia. É tão bom ouvir aquele pagode que fazia tanto sucesso e relembrar os bons tempos de quando andávamos na rua, pés descalços no chão, brigando na rua, não é mesmo? Nas festas, uma beleza, muito samba, marrom bombom, pagode,  diversão. Você também está com saudades, né. Aposto que você se amarrava quando tinha o aniversário daquele seu vizinho amigão da sua família, mas que não impedia a rua toda de aparecer.

Começo de festa: Molejão; em seguida, Art Popular e o fricote. Fumaça do churrascão subindo, pessoas gritando, aqueles bebês que recém aprenderam a andar e ficavam chorando e agarrando na perna de todo mundo que nem cachorro.  Isso quando não babavam na sua mão. Você, é claro, como todo pequeno adolescente, bem como sua mãe ensinou, tinha que sorrir. Até que finalmente acabava a agonia: chegavam seus amigos e começava a zoação. Todo mundo cantando Inaraí. E quando toca Sai da minha aba sai pra lá, o neguinho safo da churrasqueira começa a apontar praquele  amigo famoso por ser o malandrão. As esposas cheinhas, todas sorrindo e batendo palmas, dizendo: “Aahaha, muito palhaço esse teu marido, hein, Simone”.  Depois da festa, você e todos os seus amigos, ainda arrumadinho por causa do churrasco, se juntam pra fazer alguma coisa que não envolvia pegar mulher. Saudades desse tempo! Tempo da música alta em plena tarde, enquanto você só quer ver TV. Muito funk  e pagode: receita de sucesso.

Aí você cresce, seus gostos mudam, mas as saudades continuam. Você só quer satisfazer seu ouvido com aquela linda música que marcou sua infância no subúrbio. Muita farofada, asinha de frango que não  dá pra resistir pegar com a mão.

Navegando pela internet, você descobre uma festa anos 90. Muita música antiga, aquela farofada que você sempre curtiu. Que maneiro, se misturar com esse pessoal de novo! Muito pagodão clássico, PO BOX, papo de jacaré! Você se arruma e, com nostalgia, na cabeça, vai à festa!

Chegando lá, surpresa.

Você encontra enfeites coloridos nas paredes rodeando pessoas esquisitas da zona sul, com óculos wayfarer, rebolando ao som de Alexandre Pires e começa a entender um pouco o fabuloso mundo de matrix, e começa a pensar que no colégio os adolescentes deveriam ser mais unidas e não marginalizar ninguém, porque aí não existiriam pessoas assim.

Galera olha esse pessoal da zona sul querendo ser pagodeiro indie, eu chamo e vcs bate

Essa poderia ser sua primeira reação se quiser guardar tudo pra você, como se fosse dono da cultura carioca:

Que pessoal esquisito é esse na minha festa? Porra, que óculos colorido é esse?! Porque esse viadinho tá rebolando ouvindo a porra do Alexandre Pires? Cadê a galera barricuda sem camisa? Cade as gordinha escurinha? Por que essas aidéticas tão se beijando com negritude junior? Meu Deus, pesadelo! Porque tá todo mundo cantando e pulando as minhas músicas? Meu deus, eles tão ouvindo Art Popular enquanto dão o cu.


No entanto, você simplesmente acha bonitinho, enquanto lembra feliz da vida da vez que perdeu a unha depois de ter chutado o paralelepípedo, sua mãe ter ficado puta com isso e ter te metido a porrada.

Mais histórias inacabadas

novembro 22, 2010

Engraçado, eu devia ter 18 anos quando escrevi essa merda. Não é apenas uma forma de expressão: está constatado, é uma merda mesmo. Reli agora há pouco e confirmei. Mas de qualquer forma, está registrado como mais uma tentativa fracassada. Deixei os erros, a ausência de coerência, lacunas entre uma coisa e outra, o vocabulário comum, e a fraca história que deveria ser algo que chamam de “literatura fantástica”. Ainda bem que escolhi o caminho da babaquice a esse, embora, no final das contas, o destino acabasse sendo o mesmo.    

Pensando bem, acho que lembrei o porquê de ter abandonado a história: talvez (SERÁ?) pelo fato de não fazer sentido escrever sobre um lugar que não conhece – como a Europa e a história local - e a impossibilidade de tais acontecimentos terem ocorrido na costa brasileira. Porém, em resumo, era sobre um navio que possuía uma espécie de maldição e, ao ser explorado, o interior se invertia (já que o navio estava de cabeça para baixo), e os ambientes, antes tomados pela água e lodo, transformavam-se em vida novamente, inclusive com pessoas habitando. Mas porque o navio afundou, quem são as pessoas que vagam por ele? Cade o restante da tripulação? O que acontece aos aventureiros após descobrirem esse mundo sobrenatural sob a água?

Enfim, agora tenho 23. Será que a burrice permanece?                                                                    

                                                                          ***

 1º capítulo – Antonittée

Já se passaram dez anos, mas lembro como se fosse hoje. Também, como eu poderia esquecer do terror vivido naquela época. Ainda tenho as seqüelas de um tempo que se tornou nebuloso e assustador. Perdi vidas que não eram minhas, e da pior maneira possível. Por várias vezes tentei tirar a própria, mas não tive coragem. Não por mim, mas por amigos: verdadeiros, que se entregaram à morte. Antes não o tivessem feito, pois, Deus me ajude, não consigo dormir um dia sequer sem que acorde lembrando de tais dias. Há anos vivo sozinho, tentando desabafar, expor a minha dor, meus temores sobrenaturais. Nem acredito que estou vivo. E acho que estou ficando louco. Já não me importo mais se os outros não acreditam, só não suporto conviver com isso.

Antes de tudo, meu nome é Peterson, John. Mas não vou me descrever fisicamente. Aliás, é por essa minha impotência que relato o que aconteceu. Não quero mais ter vergonha do que me tornei, tomado pelo medo e covardia; corroído por imagens que não me saem da cabeça e que tenho tentado esquecer durante todos esses anos. Espero chegar no final desse relato em condições de descrever-me. Depois de seis meses de pesquisas de localização, eu e os meus amigos (arqueólogos e historiadores) aventureiros, decidimos, com após incansável empenho, embarcar à procura de um famoso navio naufragado. Quem viveu naquela época se lembra claramente. Nunca houve na história desastre tão grande com um navio de passageiros. Mas não é aí que minha história começa. Minha procura se inicia seis meses antes, no ano de 1985, dez anos após o naufrágio chamado hoje de “cemitério marinho”. Parece ridículo, mas a expressão faz jus ao ocorrido ao navio Antonittée. Eu, arqueólogo, estava na flor da idade com meus 30 anos, e já adquirira considerável experiência na profissão devido às constantes viagens ao Egito e suas magníficas escavações, inacabáveis, que já estavam, para mim, esgotadas de exploração. E, novo como era, tinha anseio por uma aventura de verdade, como é o sonho de estudioso da profissão; com uma profunda admiração pela história queria fazer parte dela. Como o naufrágio tinha sido há pouco tempo relativamente, procurei saber mais a respeito, forçando uma possível aventura. No entanto, acabei indo mais longe.

As autoridades competentes não procuraram o bastante sobre o naufrágio na época, alegando que era longe demais da costa e que era impossível alguém ter sobrevivido, e que se tivesse, já teria aparecido nadando em alguma costa do mar. Como pode, duas mil pessoas naquele navio e ninguém fez nada pra procurar algum sobrevivente ou algum indício do que aconteceu lá.

Capítulo 2- Diana

Pouco sabia sobre o navio, então fui procurar ajuda de minha amiga e antiga namorada Diana, que se formou comigo na Universidade, já que a mesma acompanhara o caso mais de perto. Lembro de seu interesse na época. Ela morava a duas cidades da minha, num apartamento pequeno de dois quartos, localizado num bairro calmo perto do litoral. Era um longo caminha até lá, que eu conhecia bem de tantas noites que passei. Enquanto isso fiquei tentando imaginar como ela estaria agora, já que nos separamos depois de uns anos de formados e algumas escavações. Quando cheguei, peguei um tímido elevador que havia lá e subi: 3º andar. Estava sentindo um friozinho inexplicável na barriga até chegar no 302. Toquei a campainha rezando pra que estivesse em casa, pois há pouco havia lembrado que não dei nenhum aviso prévio sobre a minha visita. Sorte minha a porta se abriu logo, o que não me deixou menos desajeitado. Há muito tempo não a via, mas continuava bela, muito, o que despertou em mim uma faísca da paixão que nós havíamos vivido anteriormente. Era inevitável que isso acontecesse. Diana tinha os cabelos loiros, lisos, propositadamente encaracolados; seus olhos claros, que deixariam qualquer homem são louco de amor. Tentei disfarçar, mas acho que ela percebeu, e pelo modo como ficou surpresa em me ver quando apareci de repente na sua casa, acho que também lhe restara alguma saudade.

— Surpresa? — disse eu.

— Nossa, não acredito que é você. Quer dizer que ainda está vivo? Nem acreditei quando me disseram. Pelo tempo que você sumiu — observou severamente, e todo aquele clima romântico desapareceu.

— Você sabe o quanto eu trabalho, e sabe das minhas viagens; além disso, foi você que terminou comigo, lembra? Aliás, esse foi o motivo de eu ter sumido. Agora você vem com essa. Posso entrar ou a gente vai ficar discutindo aqui na porta para chamar a atenção de todo mundo?— respondi revidando.

Seu apartamento não era muito extenso. Tinha uma modesta sala com um sofá relativamente grande no meio e duas poltronas marrons, uma em cada lado; também um carpete grande, vermelho amarronzado, que se estendia por toda a sala, cobria o chão, e uma mesinha ao centro, entre a televisão, que era bem simples, e o sofá maior compunham o lugar. Fora isso apenas um corredor que dava para a cozinha e os outros cômodos da casa. E uma nova mesinha na sala que eu nunca vira ali antes. Sentei seriamente, tomado ainda pela emoção do trágico reencontro. E só então lhe expliquei o motivo de minha ida à sua casa enquanto ela se sentava e ouvia tudo atentamente e me pareceu até empolgada naquele momento, o que me fez feliz. Mas depois de ser toda ouvidos, ela revelou algo que, mesmo não estando mais juntos, congelou-me.

— Estou envolvida com alguém agora. Acho que isso já diz tudo, e espero que você entenda. Por mais que eu ame a minha profissão não posso fazer isso. Estou dedicada ao meu relacionamento agora.

Já estava desanimado, quando ela surpreendeu com o que eu não sabia se era bom ou ruim.

— Não, espera… Eu aceito ir com você, mas ele terá que ir conosco, essa é a minha condição. É pegar ou largar…

Acho que agora perceberam do que eu estava falando. Eu estava à mercê das vontades dela. Não tive escolha. Até tinha, mas meus sentimentos foram mais fortes. Antes tivesse feito a coisa certa.

— Tudo bem. Mas posso pelo menos saber quem é o seu protegido, tão amado? Ou Você vai querer que eu o conheça na hora, de repente para me fazer uma surpresa, quem sabe?

— Deixa de ser infantil, não estou te obrigando a nada. Só estou dizendo que sem ele eu não vou — continuou.

— E eu já disse que tudo bem. Não é por isso que vim aqui. Já te disse o motivo de minha visita, e agora que estamos resolvidos eu já estou indo, tenho muito o que resolver ainda.

— Robert Jr. Ele estava conosco nas escavações no Egito; deve se lembrar dele — revelou, de súbito.

De tão surpreso não consegui dizer uma palavra, apenas continuei e fui embora, contendo meus sentimentos. Até porque tinha muito que fazer, afinal, não podia começar uma longa procura como essa com três pessoas apenas. Tirei o resto do dia e metade do outro para organizar meus pensamentos, e reavaliar do que eu precisaria. Estava pensando em um número pequeno de pessoas, não queria uma equipe muito grande, até porque sempre trabalhei com grupos pequenos. Achei que seis pessoas eram um número ideal. Agora faltava apenas achá-las.

Pensando agora até que foi um trabalho relativamente fácil. Meu grupo já tinha três pessoas, agora só faltavam mais três e mais duas pessoas que estava pensando em contratar para o trabalho braçal e deveriam ter um conhecimento mínimo sobre o mar. Sobre os três integrantes que faltavam queria uma equipe bastante especializada sobre o mar e outros naufrágios ocorridos anteriormente. De arqueólogos já bastavam nós três — eu, Diana e Robert — que modéstia à parte já formava um grupo muito bom, tirando o seu namorado… Claro. Se o trabalho era de mergulho, e ainda mais no meio do mar, tínhamos que ter, certamente, um oceanógrafo, ou alguns. Mas era impossível, no lugar onde estávamos, conseguir qualquer oceanógrafo que entendesse o bastante a respeito do acontecido. Então deixei isso para resolver quando estivéssemos na cidade de onde partiríamos para a busca. Mas já tinha em mente, talvez, algumas pessoas que poderia encontrar, e, enquanto isso, só descansei um pouco a cabeça em casa.

Aliás, ainda não disse como ela era, a minha casa. Que desapego. Não é muito grande; para falar a verdade é um apartamento muito pequeno, mas confortável, então serve. Mas eu não ligo; e como poderia ligar, moro sozinho. Por mim, se tivesse apenas a sala já seria perfeito, considerando que é praticamente a única parte que eu uso de fato, além do banheiro obviamente. Isso quando estou em casa. Não mencionei também a cozinha porque não sei cozinhar; também não faço questão. Prefiro pedir comida em casa. Fiquei então um bom tempo deitado no sofá, planejando a viagem – esta que seria depois dos dois dias seguintes – e as ligações que precisaria fazer quando chegasse no local.

No outro dia que foi o inferno, pois era o dia em que eu finalmente iria conhecer o meu companheiro de viagem, que era companheiro da minha ex-companheira-não-só-de-viagem. Diana havia me ligado para marcar um encontro para conhecê-lo, para podermos nos “entrosar mais”, segundo ela. Afinal, já que passaríamos tanto tempo juntos pesquisando, teríamos que ser amigos, não é mesmo? Hesitei um pouco, mas acabei indo, como sabem.

Combinamos num restaurante que conhecíamos; um pequeno almoço, nada demais. Chegando lá, tive que parecer agradável. Diana nos apresentou.

— Olá, então nos encontramos de novo, não é? Como é que você vai? — começou ele — Como você pode ver, eu estou muito bem. Com uma mulher linda como a Diana não poderia ficar mal nunca. Vi que mesmo ela, que tinha combinado o encontro, já estava ficando meio sem jeito.

— Pois é, você tem toda a razão, homem de muita sorte você — concordei, olhando para ela.

Ele fez uma cara confusa, como se nada entendesse, mas deixou de lado pois logo nos sentamos.

— Ela me contou o que você está planejando — voltamos ao assunto — muito ousado, vou gostar bastante. Há muito tempo não tenho uma aventura de verdade. E é a primeira vez que tenho uma no fundo do mar.

— Na verdade não vamos fazer tanto, pelo menos não tanto quanto você imagina. Grande parte do que planejei é investigativo. Quero saber o que houve naquele navio, e espero encontrar minhas respostas logo, baseado no que eu pegar nele.

— Você é bem objetivo, gosto disso — disse ele, presunçosamente — Vai ser um prazer, trabalhar com você.

— Não posso dizer o mesmo — mandei, sem me importar mais.

— Como é? Olha, se você ainda não superou o que aconteceu entre você e Diana, eu não tenho nada a ver com isso, o problema é seu. Por falar nisso, você vai ficar aí quieta, deixando ele me ofender desse jeito?

— Vamos embora, perdi a fome. Deixe-o comendo sozinho com sua mesquinharia — interferiu Diana, e como se fosse outra pessoa dirigiu-se ao namorado

— Amor, vai indo na frente que eu tenho que resolver algumas coisas aqui ainda.

Ele entendeu o momento e a deixou só comigo.

— Se você ainda me quer na sua equipe, vai ter que começar a se controlar. Não pode sair por aí dando patada em todo mundo. Que houve, algum problema com quem te trata bem?

— Tudo bem, tudo bem, calma. Desculpe-me, tá bom? Prometo não fazer mais isso. Até porque não vai haver mais oportunidades como essa. Daqui a alguns dias vou reunir todo o pessoal, e vamos começar o que temos de começar.

Ausência

outubro 18, 2010
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Um cigarro mal fumado sujava a varanda da casa. De pé, o dono dele, sonolento, perdera a vontade de tragá-lo e o jogou no chão, aparentando não ter sido a única coisa da qual havia desistido aquele dia. Também, não existia ser que conseguisse manter-se firme naquele horário. Porém, a insônia preferiu a modéstia.  A abstinência do fumo resolveu não se envolver dessa vez.  O dia anterior não havia sido bom e o alarme, que tocou às 7h da manhã e deveria acordá-lo, transformou-se apenas em um leve lembrete de que o dia em vigor seria apenas uma extensão do que passou.

A noite – inimiga nesses casos – assistiu a essa peça sem criatividade, com roteiro pobre e ações repetitivas: remexidas na cama, olhar fixo no teto, tristeza no coração. Por todas as extensões do corpo, um pesar angustiante que transformava o frio no estômago em vontade de vomitar. Mas nenhum choro.

Apesar de tudo, a consciência de que não era hora de ceder.  Precisava dormir. Antes, a confirmação do horário do evento que o esperava. Pegou seu celular, retornou para o número que o ligara na noite anterior e transformara mais um dia no pior de todos eles.

- 14h.

Voltou à cama e pôs a cabeça no travesseiro.  Mergulhou em lembranças.

Adormeceu.

Faltou ao velório do próprio filho.

Rua dos Pretos

outubro 17, 2010

Eu não sei bem do fenômeno cultural e alternativo que vem tomando conta do Rio de Janeiro ultimamente, mas posso dizer q não estou gostando nada disso. Não é preconceito, mas o número de gente afetada está se multiplicando vertiginosamente. Não é preconceito, já disse. Só que minha rotina está sofrendo certas mudanças com isso tudo. Por estudar na zona sul e, há muito tempo, lá ser o principal lugar que ando frequentando nos últimos tempos, toda noite eu pego o metrô e parto pra lá, em busca de ”’diversão”’.

Pra quem não sabe, eu moro num lugar longíquo, mas não posso dizer que seja lindo, com campos recheados de flores etc, nem que a vizinhança seja tão agradável. Na verdade, o fato de eu ir sempre pra zona sul tem relação direta com isso. Às vezes, mesmo quando eu não tenho programa dá vontade de ir pra lá. Afinal, morar em São João de Meriti não é uma das melhores decisões que as gerações anteriores da minha família tomaram e na primeira oportunidade eu fujo. Se eu pudesse conversar com minha vó sobre isso eu faria o máximo pra que ela percebesse o tamanho da minha insatisfação por ter escolhido este lugar, entre tantos, pra morar.

Aliás, até hoje ninguém conseguiu me explicar e eu, por mais que me esforçasse, não consegui entender o que faz uma família de japoneses tomar a decisão de vir morar na Baixada Fluminense.  Eles tinham opções, não precisavam disso.  Vez em quando eu vejo um japonês da zona sul na rua e penso que poderia ser aquele cara. Mas não. Tudo bem, eu supero, afinal, eles também não sabem o que é passar a infância zoando na rua, e brigando pra depois te darem apelido de Porrolho por ter levado um soco no olho tão forte que ele ficou inchado por uma semana, nem tiveram o prazer de passar pela experiência de darem o rapa sempre na sua vez de jogar bola de gude e você ter que aceitar numa boa, porque né, é brincadeira, e se você reclamar é o moleque mimado que não aceita. Então tudo bem. Eu era pobre, isso que é o pior, mas o lugar onde eu morava era tão fudido que, enfim, já dá pra imaginar o que um japonês parece. Eu nem era ruim jogando bola de gude, mas não sei o que acontecia que nunca conseguia encher uma lata de bola de gude, e todo mundo tinha uma cheia. Acho que no fundo eu tinha medo de ganhar, ou talvez, no fundo, achasse sacanagem AINDA POR CIMA tirar a bola de gude deles. Mas é o que eu sempre digo, essas situações passadas me ensinaram muitas coisas. Como, por exemplo, aprender que porrolho é bola de papel higiênico molhado feito pra jogar nos outros.

minha ex-rua (não mudou nada como pode)

Agora, já ‘adulto’, eu passo a maior parte do tempo na zona sul, onde todos têm mais dinheiro que eu. To sempre por fora dos contextos mesmo. Na infância, era o excluído, afinal de contas imagina os neguinhos sendo vistos andando com um japonês. Eu morava numa rua intermediária, num bairro chamado Engenheiro Belford.

Na rua de cima, havia a Rua dos Pretos. Esse era o nome do lugar. Não que na rua onde eu morasse só tivesse high society. Era bem feio mesmo, mas os próprios moradores apelidaram aquela outra rua de Dos Pretos. Porque era muito preto numa rua só, você não via nenhum branco descendo o morro e muito menos japoneses.

Rua dos Pretos (sério)

Aliás, quando me mudei pra rua do meio, tive que ir até de cima, pra descobrir qual era o nome verdadeiro. Obviamente, o japonês recém-chegado não iria perguntar a algum cara se ele morava na Rua dos Pretos. Enquanto todos diziam que teria que ir à Rua dos Pretos, eu iria à Capitão Tomás Peixoto, sobrenome esse que formava a maioria dos nomes das ruas ali perto, o que me faz pensar que a família Peixoto devia ser bem importante por ali. E na rua de baixo, tinha a chamada rua do asfalto, que era pra caracterizar o lugar lembrado pelo município. Era a única rua em todo o bairro que tinha asfalto, e todo mundo ia lá pra andar de bicicleta. Quem morava por lá estufava o peito, pois era a maior glória daquela época. Mas eu não morava no barro também, só no paralelepípedo, que eu falava ‘paralepípedo’ pra interagir com a galera.

Eu era amigo do pessoal. Geral jogava bola, soltava pipa, bola de gude etc. Menos quando alguém da outra rua cruzava a nossa. Quando isso acontecia, eles começavam a me tratar mal, senão pegava mal pra eles. Olhavam pra mim como seu eu fosse uma daquelas pessoas cheio de verrugas pelo corpo que aparecem no metrô e ninguém fica perto, quase lendo o pensamento deles de “o que esse japonês está fazendo por aqui?”. Claro, isso apenas no começo, depois de um tempo eles tiveram que me assumir como amigo. Felizmente, pela localização da minha casa atual ser mais perto do metrô, e infelizmente, por aquele ambiente me mostrar e me fazer lembrar de quem eu sou, agora não moro mais naquele bairro, moro no Centro. Lugar de rico.

Agora meu contexto é outro, mas ainda fora d’água. Em cada estação terminal do metrô, uma vida diferente, impressões diferentes que as pessoas têm de mim. Nem tão diferentes assim, né, porque no final todo mundo acaba me achando um babaca. Quem sabe entre as linhas um e dois do metrô, mas eu fui lá uma vez pra descobrir e quase levei um tiro. Por isso, to dando preferência a essa condição atual mesmo.

Mas o assunto principal não é esse. Acontece que eu tenho que pegar o metrô toda noite se eu quiser me encontrar com alguns dos meus amigos. Também tenho os meus aqui pelo subúrbio, vitalícios, diga-se de passagem, e ainda bem não preciso ir de metrô, dadas as recentes observações feitas por mim nas últimas viagens. Infelizmente, acabei desvirtuando do tópico principal e terá que ficar para a próxima, seus fracassados.

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